O que Madonna e outras personalidades têm a ensinar sobre dor e rejeição?

MADONNA, KESHA, SHANIA, A SABEDORIA POR TRÁS DO DISCURSO DE ACEITAÇÃO DAS MULHERES DO ANO NA MÚSICA:

NÓS CRESCEMOS COM NOSSOS TRAUMAS.”

Infidelidade, Estupro, Ageismo, Impeachment. Homenageadas à Mulheres do Ano trazem mensagens de força contra o vitimismo, reforçando a ideia de que cada desafio nos revela mais fortes do que aparentamos.

POR HARLLEY ALVEZ

PODERIA ATÉ SER UMA DAS CONFERÊNCIAS INSPIRACIONAIS DA PLATAFORMA TED, mas era nada menos que Madonna vestindo um terninho homenageando a deusa grega da música e alegria Euterpe, com o nome bordado nas costas. Foi assim que a cantora americana de 58 anos recebeu, na noite do último dia 09, o prêmio de Mulher do Ano, pela revista Billboard.

Entre as premiadas, a cantora country Shania Twain disse que nem sempre sente-se forte e corajosa.

Shania enfrentou um complicado divórcio, após descobrir que seu marido a traíra com sua assistente e amiga. “Em certos momentos, eu não queria mais viver”, disse à época.

Mas a cantora também vê que o caminho frente as adversidades é seguir em frente, à despeito de qualquer desânimo, e sonhar e trabalhar duro por aquilo que ser quer e, no final, ser corajosa, disse.

O divórcio, encerrando o relacionamento de 14 anos foi traumático, inclusive  afetando suas cordas vocais, o que a cantora de “From This Moment On” acredita ter sido uma resposta orgânica de todo o medo que sentiu, incluindo a morte de seus pais, mais tarde. “No fim, o divórcio foi uma chamada para despertar que eu precisei.”

Outra laureada foi Kesha, após um ano conturbado, no qual denunciou abuso e assédio sexual no trabalho. Muito emocionada, pediu às adolescentes: “Não deixem ninguém roubar seus sonhos”.

Há por trás dos discursos das homenageadas da noite, mensagens de empoderamento e de força contra o vitimismo, revalidando a ideia de que cada desafio traz consigo uma energia que, se mal encarada, pode ‘quebrar’ o indivíduo psicologicamente, bastante ou pouco. Ou, então revelar um alguém mais forte do que aparenta. Esse aspecto é um ponto central do trabalho de enfrentamento ao Transtorno do Estresse Pós-Traumático, ou TEPT.

Em seu discurso de aceitação à Mulher do Ano, Madonna destacou que, embora as pessoas a chamem de controversa, na verdade, seu maior ato de rebeldia é estar viva e trabalhando por 34 anos, numa indústria misógina, e na qual tantos astros, de Bowie e Michael à Amy Winehouse e Whitney já morreram.

 

FOTO – créditos instagram.com/drownedmadonnacom/

 

A rainha do pop agradeceu não apenas ao prêmio, quanto à oportunidade de estar ali e dizer “obrigada” aos que a amaram e apoiaram em seu caminho, mas também aos que dela duvidaram, dizendo que a cantora não poderia, não seria capaz ou não deveria fazer algo. “Sua resistência me fez mais forte, ir além, transformando-me em uma lutadora. Me fez a mulher que eu sou hoje. Então, obrigada!”

Nesse contexto, o escritor, palestrante motivacional e filósofo do yoga Giridhari Das, lembra que as dificuldades surgem para revelar o quão forte somos.

O segredo está em como o trauma é visto internamente, em outras palavras, que tipo de mapa mental criamos depois da experiência traumática. Aqueles que crescem após um trauma conseguiram gerar um estado mental positivo e, portanto, encontraram oportunidades geradas pela nova situação. Eles estavam pensando em termos do que podiam fazer daquele ponto em diante e não ficando presos em lamentação.

“Estudos mostram que certas pessoas não só conseguem lidar com um trauma, mas se saem melhores depois dele. O curioso é que muitas pessoas conseguem fazer isso, mostrando-se extraordinariamente fortes”, salienta Giridhari.

Madonna, pelo visto, soube fazer.

Saiba mais sobre o estresse pós-traumático

Depois de contar abusos que sofreu no início da carreira, como roubos freqüentes e um estupro com uma faca na garganta, a cantora lembrou que já a compararam ao demônio, bruxa e vagabunda por ser uma mulher que expressava sua sexualidade e opiniões. Ao reparar que seus colegas cantores, como Prince, faziam o mesmo, sem receber nenhum criticismo da sociedade, aprendeu que mulheres não têm a mesma liberdade que os homens. E assim a diva de “Express Yourself” encontrou uma causa pela qual vale a pena lutar.

Outra Mulher do Ano, a ex-presidenta Dilma Rousseff, tem sido visto ativa pelo país. Poderia bem estar trancada em seu apartamento ninando um período de luto e reclusão após seu impeachment. Em vez disso, não deu combustível à depressão, lembrando com frequência que tudo o que havia passado na época da ditadura, a diplomara para enfrentar qualquer situação. Ao receber a comenda de Mulher do Ano pelo jornal Financial Times, declarou que “Uma mulher em posição de autoridade é chamada de difícil, seca e insensível. Enquanto um homem na mesma posição, é forte e charmoso.  “Nós mulheres não somos pessoas que desistem. Mulheres não se dobram à adversidade”, declarou.

Para o professor Giridhari, que  abordou o assunto em seus livros, não é uma questão de ignorar a dor ou perda que o trauma trouxe, ou de não preferir que não tivesse acontecido, explica Das. “Mas, sim, de aceitar o evento e usar força da experiência para alcançar novos patamares de consciência e atuação.”

Há verdade por trás do antigo dizer ‘o que não lhe mata, lhe torna mais forte’, comenta o professor.

Madonna, Dilma, Kesha e Shania, manejaram a arte de superar o estresse pós-traumático, usando a dificuldade como catalisador de uma atitude positiva na psiquê e para o enfrentamento do mundo. Usaram dores físicas e emocionais, numa demonstração clara de resiliência.

Ser resiliente significa ter a capacidade de absorver impactos, sem sucumbir ao danos. Deixando a força do impacto lhe transformar, mas não sem depois se reconfigurar de volta a seu ponto de equilíbrio, após uma crise.

 

Entenda mais sobre Resiliência:

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Sem negar suas dores, como aves fenix da música, as Mulheres do Ano desnudaram seus ferimentos. Humanizaram-se, personificando que, com coragem, em lugar de vitimismo, é possível buscar forças para renascer das cinzas. E elas renasceram.

Para encerrar, a rainha da controvérsia, Madonna, não deixaria o palco sem provocação e incitou as mulheres a apoiarem umas às outras: “Mulheres têm sido oprimidas há tanto tempo que acreditam em tudo o que os homens têm a falar sobre elas.

Entre essas crenças, a de que não há regras no mundo. “Não existem, se você for um garoto. Elas existem, apenas se você for mulher”, continuou.

Ela citou que se alguém é mulher, pode ser bonita, graciosa e sensual. Mas não esperta demais e nem ser dona de sua própria sensualidade.

“Não tenha opiniões que confrontem o status quo. Seja o que os homens querem que você seja. E o que as mulheres sentem-se confortáveis com você perto desses homens”.

“E, por fim, não envelheça. Porque envelhecer é um pecado. Você será criticada e menosprezada e definitivamente suas músicas não serão tocadas no rádio”, protestando ainda contra o machismo e ageismo, termo que expõe a discriminação por base na idade de alguém. Expressão antiga, mas que poucos usavam, até a a cantora trazer à banca.

“Como mulheres, nós temos que  apreciar o nosso próprio valor e a engrandecer umas às outras. Procurando mulheres fortes para fazer amizade. Nos alinhando com essas mulheres para aprender, colaborar, apoiar e sermos inspiradas e iluminadas umas pelas outras.”

Euterpe, de algum lugar no Olimpo, certamente a aplaudiu.

FOTO créditos Instagram.com / Arianne Phillips ]

 

O 2016 Billboard Woman of The Year vai ao ar na TV americana dia 12 de dezembro.

 

Fontes:

– Joe Lynch, para a Billboard.

  • Madonna Delivers Her Blunt Truth During Fiery, Teary Billboard Women In Music Speech

http://www.billboard.com/articles/events/women-in-music/7616927/madonna-billboard-woman-of-the-year-labrinth

 

– Joe Leahy, para o Financial Times.

  • Dilma Rousseff: ‘A woman in authority is called hard, while a man is called strong’

https://www.ft.com/content/cd5c2b24-bc05-11e6-8b45-b8b81dd5d080

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